segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
DESPEDIDA - Martha Medeiros
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual
a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’
propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos
deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por
ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.
Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.
Sentir-se amado
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho"...
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo."
Daí a sabedoria do ditado popular... "amor é convivência".
E um pouquinho de ciência (eu não consigo ficar sem!): se meu cérebro vê, sente, ouve, cheira e prova, não faz nenhum sentido acreditar apenas no que um dos seus sentidos percebe ("eu te amo"), quando os outros estão em privação sensorial ("mas eu não estou ao seu lado").
Esmolas Afetivas- Martha Medeiros
Você vai até a farmácia e acaba com o estoque de lenços de papel. O atendente finge não reparar no seu nariz vermelho e nos seus olhos inchados. Aí, você volta para casa, liga o computador, abre sua caixa postal e está lá o nome do querido: mensagem para você. Seu coração dispara. Agarra o mouse com força, clica e lê as palavras mais lindas da língua portuguesa. Você foi muito importante pra mim. Jamais vou te esquecer. Foram os melhores dias da minha vida. Não mereço alguém tão perfeita. Seja feliz. Um beijo do sempre seu, Mané.
É um mané graduado, com ph.D em tortura. Deve ter feito um estágio no Doi-Code. Caramba, se ele acha você tão importante, tão perfeita, tão idolatrável, que diabos está fazendo com outra namorada? Por que não some do mapa de uma vez? Por que não faz a gentileza de deixar você esquecê-lo?
Os dias passam e o cara não escreve mais. Você retoma sua vida, lentamente. Ainda pensa muito nele, mas começa a perceber outras pessoas a sua volta e resolve abrir a guarda para a entrada de um novo amor. Aí, outro e-mail do Mané pousa na sua tela. Por que você anda sumida? Sinto muita saudade. Você é minha melhor amiga, sinto muito carinho por você.
Merece ou não merece um tijolo no meio da testa? Que papo é este de melhor amiga? Quanto ao carinho dele, você embrulha e envia para a Venezuela, alguém lá pode estar precisando. Se ele não pode dizer as coisas que você quer ouvir, que não diga nada. Tudo o que ele consegue com essa lengalenga é fazê-la passar outra temporada na farmácia.
Não estou recomendando grossura. É muito bom saber que a gente foi importante para alguém depois que o romance foi finalizado. Mas cautela aí no politicamente correto. Pessoas apaixonadas querem declarações apaixonadas. A transição de namorada para amiga só é rápida e indolor quando não há mais paixão. Cabe ao que saiu de cena ter sensibilidade para deixar o outro sofrer em paz, sem alimentar esperanças. Mais tarde, ânimos serenados, reconstrói-se a relação em outras bases, se for o caso. Atacar de melhor amigo sabendo que a garota está abalada pode parecer uma atitude bacana, mas é apenas sadismo.
"Calma. Nós ainda somos bem jovens. Daqui a pouco, quando a gente estiver lá pelos trinta, as pessoas amadurecem e começam a buscar todos aqueles objetivos dos quais você fala no seu texto. É óbvio que você vai achar alguém que queira casar, ter filhos e dividir uma vida inteira com você. Você é perfeita, linda, inteligente, meiga, carinhosa, coloca todos que estão ao seu redor para cima. É apenas uma questão de tempo. Talvez fosse o caso de você relaxar um pouco, e parar de tentar nadar contra a correnteza por um tempo. Isso cansa e nem sempre dá os resultados que a gente espera. Tá todo mundo curtindo a noite, os programas despreocupados, sem hora para voltar e sem satisfação para dar? Então tente entrar na dança e curtir um pouco esta fase. Afinal, ela é curta e, uma vez superada, não voltará mais. Deixe-se levar pela vida um pouco, sem tentar a todo o tempo ter o controle absoluto da situação. Ninguém tem esse controle, e tentar tê-lo muitas vezes só faz com que, no final, nós fiquemos com uma sensação horrível de que não conseguimos cumprir as nossas metas. Tenha menos metas a cumprir, isso retira um enorme peso das nossas costas, e permite com que nós fiquemos mais leves e, conseqüentemente, mais felizes com nós mesmos, com o que somos e com o que temos. Deixe-se levar pela vida e você verá que, daqui a pouco, ela vai te levar a um lugar muito melhor do que aquele ao qual você tinha planejado chegar."
Acho que ela está coberta de razão em suas previsões... me sinto o tempo todo nadando contra a correnteza... não só neste quesito, mas na minha visão política, na consciência ecológica, na minha postura profissional, na minha ética pessoal... me sinto realmente um ET não somente nos relacionamentos amorosos, mas em geral... e sinto sim, um enorme peso nas costas de me ver frequentemente frustrada, com metas não cumpridas, ou até com as muitas metas cumpridas ofuscadas por aquelas ainda por alcançar...atropelada pela correnteza.
Mas não me sinto infeliz... talvez um pouco só, incompreendida. Mas não infeliz. Acho que estaria infeliz me forçando a viver uma "juventude" que não me agrada. Mas concordo que talvez seja muito mais gratificante viver com menos expectativas. E é exatamente este o caminho que eu estou buscando.
De qq forma, obrigada pelo apoio. São os amigos que me fazem perceber que, apesar de nadando contra a maré, no fundo eu não estou completamente só.
Do mal-estar da minha geração
Esta pergunta vem me abrindo caminhos para muitas relexões nos últimos dias.
Observando as pessoas da minha geração me deparei com a triste constatação de que eu pareço um ET, e assim sou vista, ao confessar que sonho em formar uma família.
Para mim parece óbvio que eu e todos nós viemos ao mundo com o simples objetivo de procriar e assegurar a sobrevivência da nossa prole. E que todo o resto são meios de alcançar este fim.
Mas as pessoas da minha geração parecem achar que não... Vivem fixados na idéia de investir na sua própria "carreira", ou em ter uma vida repleta de prazeres imediatos e sem objetivos a longo prazo. O trabalho e o prazer deixaram de ser meios de garantir e colorir a existência e passaram a ser vistos como um fim em si. Mesmo que a tão valorizada satisfação pessoal não seja alcançada no tal trabalho, de que as pessoas vivem reclamando, nem nos prazeres distratores fugazes.
Todos trabalham demais e depois se engajam em inúmeras atividades puramente hedonistas para se aliviar da tensão gerada pelo excesso de trabalho...Mas a sensação de insatisfação permanece... o que fazer? Quem sabe mais um chopinho?
Sem moralismos, me parece evidente que nosso cérebro veio ao mundo programado para agir com um objetivo final e que este foi sumariamente deletado em favor do que o nosso próprio cérebro entende como simples atividades intermediárias. Daí o mal-estar dos nossos tempos. Claro que o coitado do cérebro não vai gostar nada dessa história de viver desviado de função! E reclama... em forma de sentimentos negativos, sintomas físicos... insatisfação.
Vivemos em círculos de atividades consideradas pela nossa programação inata como menos importantes, sem nunca alcançar o objetivo para que viemos aqui. E não é difícil intuir que nosso sistema vai aumentando a tensão progressivamente até o momento em que deveria entrar em ação um mecanismo de feedback negativo (como se dissesse: "ok. mission acomplished.") que desligaria o sistema. E isso nunca ocorre. Porque a minha geração sei lá por que considera que o objetivo para que a espécie veio programada não é mais importante. O importante agora é trabalhar, ter uma carreira, ganhar dinheiro, montar sua própria vida, para usufruir dela sozinho ou em companhia de outros que também só estão ali de passagem. O cérebro, ávido por vínculos durarouros, que se lixe! Por que a geração dos anos 70/80 se considera acima da natureza! Verdadeiros deuses...poderosos e sozinhos... andando em círculos como peixinhos de aquário...vivendo o momento!
domingo, 16 de novembro de 2008
Bloco do eu sozinho
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Eu amo meu presidente!
Do presidente Lula, ontem, para sindicalistas italianos.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Satisfação conjugal na pós-modernidade
Uma das grandes preocupações da Psicologia e de outras áreas do conhecimento humano é estudar meios de oferecer melhor qualidade de vida às pessoas. Um dos aspectos importantes e determinantes de uma boa qualidade de vida é a eficácia dos relacionamentos interpessoais, já que estes estão presentes, em grande parte do tempo, no dia-a-dia das pessoas.
Podemos considerar o relacionamento conjugal e a satisfação alcançada com o casamento um importante fator determinante da qualidade de vida de um indivíduo. Isso tanto em função da quantidade de tempo empregado nesta relação, quanto pelo valor simbólico que a “vida amorosa” adquire em nossa sociedade.
Este trabalho tem por objetivo a reflexão sobre as relações amorosas entre as pessoas na pós-modernidade, mais especificamente, sobre a satisfação conjugal nos dias atuais.
A reflexão sobre este tema partiu da leitura do livro “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman, que trata exatamente das relações romântico-sexuais entre os indivíduos na pós-modernidade. Entretanto, o que pretendo abordar neste trabalho vai além da discussão proposta por este autor.
O relacionamento conjugal na pós-modernidade e, principalmente a satisfação conjugal, são temas extremamente relevantes atualmente, porém, ainda pouco explorados pela literatura especializada. A discussão do casamento hoje passa apenas superficialmente pelas mudanças ocorridas na contemporaneidade. Assim, usamos velhos discursos para novos e inéditos problemas.
Certamente, não pretendo, com este trabalho, esgotar este tema. Por outro lado, busco trazer a tona algumas questões pertinentes acerca do assunto, tendo como pano de fundo a prática clínica.
Dessa forma, o objetivo molecular deste trabalho é explorar como a clínica de casais, aqui focando principalmente a abordagem cognitiva, pode ser enriquecida pelo estudo das questões, problemas e vantagens que a pós-modernidade traz para a relação e a satisfação conjugal.
Relacionamentos pós-modernos:
De acordo com Bauman (2004), em nosso mundo pós-moderno, caracterizado pela individualidade, os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo e não há como determinar quanto um se transforma no outro.
Hoje temos, por um lado, homens e mulheres lidando com seus sentimentos facilmente descartáveis e, por outro, ansiando pela segurança e pela mão amiga que possam contar num momento de aflição. Indivíduos desesperados por “relacionar-se”. No entanto, estes indivíduos desconfiam da condição de “estar ligado”, em particular, de estar ligado “permanentemente”, para não dizer eternamente. Isso porque temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem estão dispostos a suportar e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para relacionar-se.
No todo, o que as pessoas aprendem hoje é que compromisso, e em particular o compromisso a longo prazo, é a maior armadilha a ser evitada no esforço por “relacionar-se”. A hipótese de um relacionamento “indesejável, mas impossível de romper” é o que torna “relacionar-se” a coisa mais traiçoeira que se possa imaginar. “Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente.
Comprometer-se com um relacionamento é, pois, uma faca de dois gumes. Manter ou não o casamento passa a ser uma questão de cálculo e decisão. Porém, não há motivo para supor que seu parceiro ou parceira não deseje, se for o caso, exercitar uma escolha semelhante, e que não esteja livre para fazê-lo, quando desejar. Essa consciência, por sua vez, acaba por aumentar ainda mais a sensação de incerteza.
O casamento ao estilo antigo “até que a morte nos separe”, já desestabilizado pela co-habitação “vamos ver como funciona”, ou “morar juntos”, reconhecidamente temporária, é substituído, na pós-modernidade, pelo “ficar juntos”, de horário parcial ou flexível.
Abandonar e destituir foram celebrados, por um breve período, como a derradeira libertação do sexo da prisão em que era mantido por uma sociedade moderna patriarcal e puritana.Teríamos, afinal, um relacionamento mais puro, um encontro que não servia a outro propósito senão o prazer e a alegria. Uma felicidade de sonho, sem restrições, sem medo de efeitos colaterais e, portanto, alegremente cega às suas conseqüências. Uma felicidade do tipo “satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta”. A mais completa encarnação da liberdade, tal como definida pela sabedoria e pela prática populares da sociedade de consumo.
Afinal, se, em nossa sociedade consumista, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatório são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que novas e aperfeiçoadas versões aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento, porque as parcerias seriam consideradas uma exceção à regra?
O que caracteriza o consumismo não é acumular bens, mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de abrir espaço para outros bens e usos. A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam.
De acordo com Volkmar Sigusch, citado por Bauman (2004), todas as formas de relacionamento íntimo atualmente em voga portam a mesma máscara de falsa felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre. Ao olharmos mais de perto, descobrimos anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição.
É correto, talvez até estimulante e ao mesmo tempo maravilhoso, que o sexo seja assim liberado. O problema é como mantê-lo na forma quando não se dispõe mais de estruturas.
Pode-se pensar hoje que as íntimas conexões do sexo com o amor, a segurança, a permanência e a imortalidade, via continuação da família, presentes antigamente, não eram, afinal de contas, tão inúteis e constrangedoras como se imaginava que fossem. Os antigos companheiros do sexo, supostamente antiquados, talvez fossem seus sustentáculos necessários.
Dentro deste modelo, nem o amor “até que a morte nos separe” nem consentir em estabelecer compromissos sem volta eram considerados redundantes – muito menos percebidas como limitadoras e opressivas. Pelo contrário, costumavam ser os “instintos naturais”. Tampouco eram, de qualquer ponto de vista, “irracionais”: eram os equipamentos e manifestações necessários e obrigatórios da racionalidade do homem. O amor e a disposição para procriar eram companheiros indispensáveis do sexo, da mesma forma que as uniões duradouras que ajudavam a criar eram produtos principais e não efeitos colaterais dos atos sexuais.
Dessa maneira, privado de seu antigo prestígio social e dos significados que antes eram socialmente aprovados, o sexo encerra hoje a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína líquida da vida moderna.
Todavia, não há sentido em comparar os sofrimentos da passado e do presente, tentando descobrir qual deles é menos suportável. Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo.
O que temos de concreto no presente é que esse dilema dos relacionamentos na pós-modernidade não tem uma boa solução. Pior ainda, que ele está impregnado de um paradoxo: não apenas a relação falha em termos da necessidade que deveria cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais presente.
Além disso, se não há uma boa solução para um dilema, as pessoas tendem a se comportar de modo irracional, aumentando o problema e tornando ainda menos plausível resolvê-lo. O que vemos hoje é que, ao se sentirem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo não-construtivo.
Conceitos da literatura que contribuem para a reflexão:
De acordo com Epstein e colaboradores (2003), expectativas são as predições que as pessoas fazem sobre a probabilidade de determinados eventos ocorrerem no futuro, em condições específicas. As expectativas negativas podem exacerbar o estresse, porque os estressores antecipados podem ser tão ou mais perturbadores do que os eventos reais do relacionamento.
Quando um casal inicia um relacionamento, vão sendo absorvidos um conjunto de crenças e expectativas que cada um desenvolveu em função de sua biologia, de sua cultura, dos modelos que teve na vida e do resultado de suas experiências com o meio que atuou e que atua (Tanganelli, 2003). As expectativas que cada parceiro tem sobre a natureza do relacionamento íntimo influem na dinâmica do relacionamento em função das distorções nas avaliações que eles podem apresentar sobre o mesmo.
Por outro lado, temos as suposições e os padrões, que são duas formas de esquemas cognitivos ou representações internas relativamente estáveis que o indivíduo tem para caracterizar coisas e acontecimentos, bem como para compreender as relações entre eles. Em termos das cognições dos casais sobre relacionamentos, as suposições são crenças a respeito da natureza humana e da maneira pela qual duas pessoas se comportam entre si em um relacionamento íntimo. Os padrões são as crenças sobre as características que parceiros íntimos e seus relacionamentos “deveriam” ter.
Em terapia, cabe ao terapeuta ajudar o casal a “reescrever” padrões e suposições extremos, criando visões mais moderadas e ainda consistentes com os valores básicos da pessoa.
A terapia cognitiva para casais, conforme proposta por Beck (1995), enfatiza fortemente os esquemas. A intervenção terapêutica se baseia em pressuposições por meio das quais os membros da família se interpretam e se avaliam mutuamente e nas emoções e comportamentos gerados em resposta a essas cognições. Assim como o indivíduo mantem esquemas básicos sobre si, seu mundo e seu futuro, ele também mantém esquemas sobre sua família. Esses esquemas, provocam distorções na percepção e interpretação da realidade de modo a fazê-la convergir com o esquema. Dessa forma, os esquemas costumam se auto-perpetuar, em um ciclo infinito.
Os esquemas familiares são crenças compartilhadas que a família formou como resultados de anos de interação integrada entre os membros da unidade familiar. Dattilio (2003) sugere que os indivíduos basicamente mantém dois conjuntos de esquemas separados sobre famílias. Estes referem-se a esquemas familiares relacionados à família de origem dos cônjuges e esquemas relacionados a famílias em geral. Os esquemas familiares também contêm idéias sobre como os relacionamentos conjugais deveriam funcionar.
A família de origem de cada parceiro de um relacionamento desempenha um papel crucial na formação do esquema sobre a família imediata. Crenças oriundas da família de origem podem ser conscientes ou inconscientes e contribuem para um esquema conjunto associado, que leva ao desenvolvimento do esquema sobre a família atual. Entretanto, os esquemas familiares, apesar da estabilidade característica dos esquemas, estão sujeitos a mudança, à medida que acontecimentos importantes vão ocorrendo na vida familiar.
Ainda, Del Prette, A. e Del Prette, Z.A.P. (2001, pág. 31) definem habilidades sociais como “experiências de diferentes classes de comportamentos sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais”. Desempenho social seria “a emissão de um comportamento ou seqüência de comportamentos emitidos em uma situação social qualquer.” Por fim, o termo competência social “tem sentido avaliativo que remete aos efeitos do desempenho social nas situações vividas pelo indivíduo, qualificando, portanto, a proficiência de um desempenho e referindo-se à capacidade do indivíduo de organizar pensamentos, sentimentos e ações em função de seus objetivos e valores e articulando-os às demandas imediatas e mediatas do ambiente.”
Os comportamentos socialmente habilidosos são, em grande parte, aprendidos na interação do indivíduo com o seu ambiente. Começam a ser desenvolvidos na infância (modelo de pessoas próximas, modelagem social e esquemas de reforçamento) e podem continuar o desenvolvimento, dependendo das contingências a que são submetidas (Skinner, 1989). A aquisição do repertório comportamental socialmente habilidoso envolve um aprendizado durante toda a vida através da interação do indivíduo com seu meio social, no exercício crescente de novos papéis e assimilação de normas culturais (Del Prette e Del Prette, 1999).
A literatura tem mostrado que as habilidades sociais constituem em importante ingrediente das relações conjugais satisfatórias e que a competência social é determinada por múltiplos fatores, incluindo-se aí as crenças e normas individual ou coletivamente assimiladas.
Sabemos hoje que indivíduos com um repertório adequado de habilidades sociais têm maior probabilidade de apresentarem satisfação no relacionamento conjugal do que aqueles que não o desenvolveram (Flora e Segrin, 1999).
A satisfação conjugal é, ainda, relacionada indiretamente com a capacidade de resolução de problemas (componente das habilidades sociais). No estudo de Dela Coleta (1992), experiências de sucesso na resolução de problemas levaram o casal a aumentar suas expectativas de controle interno, que é relacionado a maior satisfação conjugal.
Em muitos casos de separação e/ou busca de auxílio terapêutico, têm-se constatado que a causa está nas dificuldades de um ou ambos os cônjuges no que diz respeito às habilidades interpessoais. Estas pessoas, por algum motivo, não desenvolveram um repertório satisfatório para se comunicarem, expressarem sentimentos, opiniões e desejos, ouvirem o outro, entre outras habilidades. Então, acabam vivendo num ambiente aversivo para ambos, com escassez de reforçadores positivos.
Por outro lado, observa-se que há cônjuges extremamente habilidosos socialmente que conseguem reforçar-se mutuamente, expressar seus sentimentos, desejos e opiniões, constituindo assim um ambiente saudável, que possibilita o desenvolvimento pessoal de ambos e a educação de seus filhos para serem também emocionalmente saudáveis e socialmente habilidosos.
Os aspectos reforçadores dos relacionamentos conjugais, ou seja, mais conseqüências recompensadoras que negativas e reciprocidade do casal na emissão de reforçadores, possibilitam a manutenção do relacionamento maximizando a sua qualidade.
Casais mais satisfeitos possuem um relacionamento rico em reforçadores positivos, habilidades de resolução de problemas, equilíbrio entre fornecer e receber reforço positivo e demais fatores que dependem, entre outros aspectos, das habilidades sociais de ambos.
Discussão:
Num cenário como o que vivemos hoje na Pós-modernidade, aqueles que optam por casar-se, por renunciar às diversas oportunidades, sofrem, além das pressões endógenas inerentes à dinâmica da vida conjugal, pressões exógenas, em função dos novos arranjos sociais e de relacionamentos que se colocam nesta época, diferentemente de seus pais e avós.
Manter ou pretender manter, atualmente, um casamento por toda a vida é “nadar contra a corrente”, na medida em que inúmeras e promissoras oportunidades de felicidade em relacionamentos “mais simples” e com “menor esforço pessoal” que o casamento se mostram. Assim, a satisfação conjugal passa a ser vista sob um novo ângulo.
A satisfação conjugal passa a ser entendida como: 1) Condição sine qua non para se permanecer casado, algo imprescindível para a manutenção do casamento 2) Uma recompensa pelo esforço feito em ficar casado, 3) Algo a ser alcançado a qualquer custo, 4) O grande objetivo de plenitude, tranquilidade e segurança, que faria do casamento uma melhor opção existencial do que as “relações de bolso”. Se a satisfação conjugal não é alcançada em sua plenitude, temos o grande número atual de divórcios (Afinal, por que permanecer numa relação não satisfatória se esta já não é a única opção de se encontrar a felicidade, como era concebida até alguns anos atrás), frustração e, conseqüentemente, depressão.
Segundo a estatística apresentada pela revista Veja em 11/09/1999, o índice de divórcios nos EUA é de 60%, na Inglaterra, 40%, e no Brasil, de 25% (IBGE, 1995). Este índice aumenta a cada dia em todo o mundo e surgem mudanças nas expectativas sobre o que é um bom casamento.
Os dados sugerem, ainda, que o casamento tradicional (marido provedor, mulher dependente, obediente e submissa) tem sido substituído por uma relação de maior amizade, afinidade, divisão de tarefas e despesas.
Atualmente, os esquemas sobre o funcionamento conjugal, construídos ao longo de nosso desenvolvimento, tomando por base nossa família de origem, não mais se encaixam totalmente em nossa realidade pós-moderna. Entretanto, sabemos o quanto estes esquemas são difíceis de serem modificados e como estes se auto-protegem de elementos da realidade que possam desconfirmá-los, gerando um conflito perene entre o que acreditamos ser o modelo de relacionamento e a nova realidade que se impõe.
Hoje, tanto o homem quanto a mulher precisam de muito mais do que seus avós necessitavam para serem felizes. A sociedade de consumo da pós-modernidade impõe sua lógica não somente sobre os produtos, mas também sobre os relacionamentos e a satisfação que estes “devem” proporcionar. Como hoje estar casado é uma opção e não mais uma etapa necessária da vida de praticamente todos os seres humanos, ao se trocar a oferta de quantidade por uma relação monogâmica, exige-se, em troca, mais qualidade.
Assim, as exigências e as expectativas se tornam cada vez maiores e mais amplas e a satisfação conjugal, quando estas não são atendidas, também, conseqüentemente, mais distante de ser alcançada.
Vivemos buscando mais e cada vez menos satisfeitos, num ciclo vicioso em que os objetivos não-alcançáveis e não-alcançados, alimentam a crença predominante de que se precisa de cada vez mais. O preço desta roda-viva frenética é a insatisfação tanto dos solteiros quanto dos casados, divorciados e “semi-casados”.
Ainda, num momento em que as pessoas, particularmente as mulheres, estão buscando cada vez mais satisfazer às suas necessidades, surgem conflitos nos relacionamentos, quando estas buscas não convergem para um mesmo ponto.
Hoje em dia, as pessoas, até mesmo as mulheres, têm, teoricamente, tudo o que precisam para viverem sozinhas. Assim, ao atrelarem suas vidas à de outra pessoa, procuram alguém que as faça feliz, que as liberte do vazio existencial e não alguém que as “atrapalhe”. Mas isso é um paradoxo, pois na medida em que vivemos com outras pessoas, precisamos também atender às suas necessidades. Este outro que preenche o vazio de cada um, não pode ser apenas mais um bem de consumo. Os indivíduos da sociedade de consumo por vezes se esquecem que o outro é também um ser humano e, como tal, possuiu suas próprias necessidades.
Como conciliar, principalmente para as mulheres, mas também para os homens, os ideais de família e casamento arraigados em nossa memória coletiva e em nossos esquemas? Como evitar que estes moldem as nossas expectativas, num mundo em que o que se vê é uma inversão da ordem até então corrente, com, por exemplo, a crescente participação da mulher na vida social e profissional, o que gera profundas alterações em seu papel social, mas também no papel social de seu companheiro e na realidade do funcionamento familiar? Como lidar com a frustração de não ter as expectativas atingidas?
Como conciliar os objetivos atuais dos parceiros, suas crenças? Temos, de um lado, a mulher buscando conquistar seu espaço profissional e, do outro, o homem querendo deixar de ser o depositário único de todas as responsabilidades de sustento e proteção da família, apreciando a ajuda de sua parceira fora de casa. De que forma podemos lidar com essa realidade tendo em vista o modelo de família que originou nossos esquemas e nossas expectativas?
A solução provisoriamente encontrada pelas famílias hoje é a chamada “tripla jornada feminina”: emprego, família e afazeres domésticos. Porém, como toda solução, esta também tem seus problemas: mulheres cansadas, estressadas, pressionadas e frustradas que e porque não conseguem dar conta de tudo, se sentindo injustiçadas por assumirem tantas tarefas, porque não conseguem dedicar-se tanto ao parceiro e aos filhos e se sentem culpadas por isso, mas que também precisam lidar com um mercado de trabalho onde elas têm os mesmo deveres e, entretanto, direitos distintos dos homens. E homens, por sua vez, também insatisfeitos e frustrados com a sua situação, com a provável perda da qualidade e frequência da vida sexual, com a falta de tempo, com a incerteza quanto ao seu papel social e o de sua esposa, sem saber o que esperar. O indivíduo pós-moderno está sempre em dívida. Enfim, pressões que hoje existem e contribuem para que cada vez mais casais se sintam frustrados e insatisfeitos.
Desta forma, torna-se mais importante ainda nos dias de hoje pensarmos em habilidades interpessoais que permitam aos indivíduos solucionarem e lidarem com seus conflitos e divergências, para que possam se realizar sem ter que abrir mão do casamento e ainda assim obter satisfação conjugal.
Neste novo modelo de relacionamento, é fundamental conviver, saber da vida do outro, conversar, trocar idéias sobre qualquer assunto e saber ouvir. Pode-se observar que os indivíduos envolvidos em um relacionamento conjugal estão buscando, no seu dia-a-dia, mesmo que ingenuamente e sem conhecer cientificamente o conceito, comportamentos socialmente habilidosos dentro do contexto do casamento.
Por outro lado, na medida em que a proximidade entre as pessoas é substituída pelas “relações virtuais”, as habilidades sociais tornam-se menos importantes e valorizadas. Portanto, dedica-se menos tempo e esforço ao seu aprendizado o que faz com que as pessoas praticamente não as tenham e precisem procurar cada vez mais relações virtuais, que exigem menos o uso destas habilidades interpessoais, onde possam se sentir mais confortáveis.
O desvanecimento destas habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem.
Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmos, e por essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor.
Sabe-se, também, que casais mais habilidosos no manejo de situações sociais tendem a apresentar um maior grau de satisfação conjugal e um menor índice de divórcios. Entretanto, como alcançar efetivamente essa satisfação? Como ajudar os indivíduos que, filhos da nossa sociedade pós-moderna, não conseguiram desenvolver essas habilidades de maneira satisfatória?
Além disso, será que os esquemas familiares, caracteristicamente tão estáveis, podem ser trabalhados para tornar o indivíduo mais adaptado para manejar com essa realidade e suas mudanças tão repentinas?
Ainda, se os problemas específicos trazidos pela era em que vivemos forem abordados de forma mais direta e menos abstrata, remodelando as expectativas distorcidas individuais, no âmbito da clínica, podemos obter melhores resultados em termos de satisfação conjugal? Será que as intervenções com casais hoje consideram estas questões? Será que são eficazes para os casais pós-modernos?
Essas questões não são assim tão simples de serem abordadas na clínica e transpostas para a prática da intervenção com casais. Contudo, parece razoável que, num momento em que os novos desafios colocados para os casais no presente se tornam tão pregnantes, a clínica possa ensaiar uma leitura inteligente dessa realidade de modo a planejar intervenções que estejam convergentes com os problemas reais e objetivos enfrentados pelos indivíduos contemporâneos.
O Santo Graal
Em seu livro “Felicidade”, Eduardo Giannetti procura responder a uma das questões mais difíceis da humanidade: O que é a felicidade?
Na sabedoria popular, diz-se que “dinheiro não compra felicidade”. Verificamos, também, que não há nenhum sistema socioeconômico que possa, por si só, assegurar a felicidade e a realização pessoal dos indivíduos, a ele submetido. Feudalismo, Mercantilismo, Socialismo e Capitalismo, mesmo tendo promovido gradualmente a melhoria das condições de vida da população, não conseguiram resolver o problema.
Será que a ausência de felicidade é o preço que a humanidade paga pelo avanço da civilização, um castigo eterno pela perda do estado de natureza? Um castigo tal como Adão e Eva ao morder o fruto proibido?
Do ponto de vista da tecnologia, ao contrário do que se poderiam imaginar, os avanços tecnológicos não só não trazem a tão sonhada felicidade, como colocam para os seres humanos, novas questões para se preocupar, como o excesso de tarefas e, a eterna luta contra o tempo. Afinal, segundo os estudos da Psicologia Evolucionista (Cosmides & Tooby, 1997), nosso aparato cognitivo foi desenhado ao longo da evolução para resolver os problemas típicos da Idade da Pedra e não os problemas que os tempos atuais nos colocam.
O desenvolvimento filogenético da espécie não é capaz de acompanhar a velocidade das mudanças ambientais. De acordo com esta perspectiva, portanto, a rapidez das mudanças no nosso processo civilizatório seria uma agressão às nossas bases primitivas e o nosso cérebro estaria, então, fadado a lutar para tentar dar conta de cada nova mudança.
Podemos ainda refletir sobre como vemos com freqüência, hoje em dia, a felicidade ser relaciona à quantidade de neurotransmissores tais como dopamina e serotonina, nas fendas sinápticas específicas de seus respectivos neurônios. Entretanto, se assim fosse, porque a grande maioria dos pacientes medicados com inibidores seletivos de recaptação de serotonina (como a fluxetina ou a paroxetina, por exemplo) ou os usuários de drogas que estimulam a liberação de dopamina (como a cocaína, a heroína ou mesmo a cafeína), não se consideram felizes?
Outra possibilidade, seria que o ser humano somente conseguiria definir felicidade em função do contraste com a infelicidade. Estaríamos assim, num paradoxo, onde precisamos ser infelizes para sabermos o que precisamos para sermos felizes. O descontentamento seria, dessa forma, o motor da busca.
Será, ainda, que se todos os seres humanos se considerassem felizes, tal felicidade seria tão valorizada? Pensemos na lei maior do mercado, a Lei da Oferta e da Procura. Se todos fossem felizes, haveria muita oferta de felicidade e pouca procura. Poderíamos considerar o problema resolvido? Pensemos, então, em outro princípio regente do consumo, que diz que o ideal de consumo é aquele que poucos possuem, o artigo raro. Nesse momento podemos concluir que a felicidade só é importante na medida em que muitos não a possuem. Por este raciocínio, podemos ainda imaginar que o dia que todos finalmente alcançarmos a felicidade, voltaremos a sermos infelizes. Estamos mergulhados em num paradoxo insolúvel?
De acordo com Eduardo Giannetti, descobrir o que é a felicidade implica em refletir sobre o que é realmente importante na vida. Contudo, se cada ser humano é único e, mais ainda, se cada pessoa se modifica com o passar do tempo, como definir o que faz alguém feliz?
É exatamente esta a mensagem implícita que o leitor pode apreender da estratégia literária de Eduardo Giannetti, em seu livro “Felicidade”. Ao promover um debate entre personagens muito diferentes entre si sobre o que seria, afinal, a felicidade humana, ele nos provê de diferentes e interessantes perspectivas para a reflexão, muitas delas, até então, pouco presentes na definição que o senso comum propõe sobre este tema. É através da fala dos personagens Melo, Otto, Leila e Alex, que o autor coloca estes diferentes pontos de vista. Sob a forma de um diálogo filosófico, o texto, mais do que apontar uma conclusão, tem o objetivo de provocar, tal como Sócrates na Antiguidade, a dúvida e a reflexão do leitor. E além de provocar a reflexão, este livro traz ainda valiosas informações que a embasam.
A cada capítulo, o leitor identifica-se com um determinado ponto de vista apresentado por um dos personagens, ou com vários deles ao mesmo tempo. O debate prende a atenção, levando o leitor a pensar sobre os argumentos de cada um dos personagens e a formar sua própria opinião. O texto nos leva, assim, a “tomar partido” de um ou outro personagem a cada momento.
Portanto, a grande mensagem deste livro é a de que a definição de felicidade é única para cada um de nós e, em cada momento de nossa vida, esta pode se modificar, nos levando a uma busca eterna e infinita por esta que poderia ser considerada o verdadeiro Santo Graal da humanidade. Na realidade, poderíamos considerar que a felicidade ou a ausência dela é fruto das nossas escolhas, da forma como optamos por conduzir a nossa existência, das expectativas que fazemos a respeito de nossa vida e do que efetivamente fazemos para tornar estas expectativas realidade.
Uma boa conclusão seria que, se as pessoas não estão certas sobre o que desejam, elas podem estar sistematicamente equivocadas sobre o que poderia torná-las felizes. Tal qual a procura do Santo Graal, buscamos algo que não sabemos o que é, onde está, ou mesmo se realmente existe.
Referências Bibliográficas:
Cosmides, L. e Tooby, J. (1997). Evolutionary Psychology: A Primer. Disponível eletronicamente em: http://www.psych.ucsb.edu/research/cep/primer.html
Giannetti, E. (2002). Felicidade: diálogos sobre o bem-estar da civilização. São Paulo: Cia das Letras.
Informações sobre o autor:
http://www.ibmecsp.edu.br/inst/modules/shortbios.php?recid=186&popup=1
sábado, 25 de outubro de 2008
Eleições no Rio
Outro dia ela veio me perguntar porque nas eleições para prefeito do Rio o candidato de esquerda estava em uma coligação de direita enquanto o candidato de direita estava em uma coligação de esquerda. Boa pergunta!
Inicialmente cabe ressaltar que, apesar de todos os esforços em contrário, qualquer pessoa, mesmo sem conhecer, percebe a formação direitista do candidato Eduardo Paes. Segundo ela, ele tem "aquela cara de político falso do terceiro mundo, que beija criancinha". Plenamente de acordo. Mas este ainda não é o meu texto pró-Gabeira. Talvez eu me anime de escrever um até domingo.
Como explicar que o jogo político do Brasil permita que Gabeira, o candidato ex-guerrilheiro, militante de esquerda, sequestrador de Embaixador, seja apoiado pelo DEM (de demônio!) de César Maia e Solange Amaral (sim, o demo!), antigo ARENA, e não pelos partidos teoricamente de esquerda, PCdoB, PT etc? Mais interessante do que isso é explicar por que estes partidos resolveram apoiar com afinco um vira-casacas político, oportunista-beija-criancinha obviamente de direita? Até o presidente Lula, coitado, teve que passar por este constrangimento... tudo em nome do tal jogo político.
Entendo que os interesses em jogo nas eleições federais de 2010 superam os interesses municipais do Rio de Janeiro. Consigo até aceitar que o Lula, os dirigentes do PMDB, do PT etc pensem desta forma, afinal, nenhum deles mora no Rio de Janeiro. Sei da importância de uma aliança PT-PMDB em 2010 para fazer frente ao PSDB-DEM e que as eleições do Rio nada mais são do que um ensaio desta brincadeira de gente grande. Em nível federal, talvez até valha a pena ter Eduardo Paes como prefeito para não ter o Serra ou o Alckimin como presidente... talvez o Lula esteja certo...
Mas sinceramente, dói em mim, e não entendo como não dói no restante dos cariocas, ver o Rio ter um enjeitado do PSDB como o "candidato do povo". O cara não prestou nem pra ser o candidato do PSDB!!!!!! Nem eles quiseram...
Não acho, contudo, que este cenário tenha sido causado nem pelo PMDB nem pelo próprio Eduardo Paes... ele é só um oportunista, um surfistinha da zona sul pegando um jacaré na onda de falta de noção e de projeto da política carioca. Acho que a culpa do cenário em que vivemos é dos partidos de esquerda do Rio: PT, PCdoB, PDT, PSOL e similares. Micro-partidos. Insignificantes, mas todos com candidatos próprios à prefeitura! Tudo isso porque nenhum deles consegue sacrificar seus projetos pessoais em função dos interesses do município. Cada um sonhando em ser prefeito... que bonito! E nessa quase tivemos Crivella na parada!
Se não fosse a falta de habilidade do Crivella, o carisma do Gabeira e a decisão de uma elite esclarecida em dar um voto-útil aos 45min do primeiro tempo, talvez eu estivesse aqui encarecidamente pedindo, implorando, votos para o pouca-coisa do Eduardo Paes... Tudo menos Crivella! Por que? Porque Jandira e cia não seguram a barra de entender de uma vez por todas que ninguém quer um vereadorzinho qualquer como prefeito. Legislativo é uma coisa, executivo é outra. E ainda veio reclamar da forcinha que a imprensa deu pelo voto-útil anti-Crivella! Tenha paciência!
Partidos que preferem ter um qualquer de direta no poder do que alguém com idéias muito parecidas com as suas próprias, apenas um pouco mais pragmático. Será que é porque neste caso eles não vão ter do que reclamar? Quem sabe o medo seja de não saber fazer outra coisa, depois de anos de inúteis protestos ao vento nos discursos na Assembléia Legislativa, sem nenhuma medida efetiva em direção à mudança. E agora que temos a chance da mudança, não satisfeitos em atrapalhar no primeiro turno e quase contribuir para transformar o município numa grande Assembléia de Deus, os micro-partidos resolvem ainda encher a paciência mais um pouquinho e virar a casaca para Eduardo Paes? Realmente, se eu não fosse moradora do Rio, poderia até dizer que por esta eu não esperava...
Voltando à minha amiga, acho que ela ficou satisfeita com a explicação de que aqui no Brasil essa coisa de ideologia, de projeto político, não é algo realmente levado à sério pelos candidatos e partidos...Direita ou esquerda? Depende do ângulo que a gente olha...
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Vida simples
Agora resolvi aproeitar o som do silêncio... viver do jeitinho que eu quero, trocar o dia pela noite...whatever I want!
Abaixo está um trecho de um livro muito interessante dessa minha nova fase: "The art of imperfection"
"Ten good reasons to be an ordinary person
1) You can throw away your junk: you are not saving it for the posterity.
2) When you fall asleep hugging a pillow, you don’t think you need to talk to your shrink about it.
3) You derive great satisfaction from walking your own dog.
4) You can miss a day at work and the world won’t end.
5) You have nothing to hide, and no place to hide it.
6) You don’t travel the world in search of what you have at home.
7) You don’t have to get all dressed up to go get a sandwich.
8) No one notices whether or not your car is clean, the insides of your closets are neat, and your fence is freshly painted.
9) You don’t have to try to make something out of everything.
10) You are enlightened, though you don’t know what it means…let alone care about it."
Why be happy with more if you can be happy with less?
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Para entender as mulheres...
Ao contrário do senso comum de que as mulheres são complicadas, a impressão que esta charge me provocou foi a de que as mulheres apenas têm formas mais complexas e sofisticadas de processar as relações entre os fatos de uma situação. Em inúmeros momentos me vi sem poder responder afirmativamente a uma pergunta do tipo "foi alguma coisa que eu fiz?", pois na verdade não tinha sido nada que havia sido feito, mas apenas a menção de uma intenção ou desejo de fazer... "Foi algo que eu fiz?". Não. "Foi algo que eu disse?" Não. Foi algo que você disse, ou fez, ou pensou em fazer, que me fez ter a impressão que você deseja, pretende, fez, algo que eu não aprovo, que me magoa. Será que é tão complicado assim?quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A cadeira
"CREONTE: Escute, rapaz
você já parou pra pensar direito
o que é uma cadeira? A cadeira faz
o homem. A cadeira molda o sujeito
pela bunda, desde o banco escolar
até a cátedra do magistério
Existe algum mistério no sentar
que o homem, mesmo rindo, fica sério
Você já viu um palhaço sentado?
Pois o banqueiro senta a vida inteira,
o congressista senta no Senado
e a autoridade fala de cadeira
O bêbado sentado não tropeça
a cadeira balança mas não cai
É sentando ao lado que se começa
um namoro. Sentado está Deus-Pai,
o presidente da nação, o dono
do mundo e o chefe da repartição
O imperador só senta no seu trono
que é uma cadeira co'imaginação
Tem cadeira de rodas pra doente
Tem cadeira pra tudo que é desgraça
Os réus têm seu banco e o próprio indigente
que nada tem, tem no banco da praça
um lugar pra sentar. Mesmo as meninas
do ofício que se diz o mais antigo
têm escritório em todas as esquinas
E quando o homem atinge seu momento
mais só, mais pungente de toda a estrada,
mais uma vez encontra amparo e assento
numa cadeira chamada privada.”
Trecho da peça "Gota d'água", de Chico Buarque e Paulo Pontes.
domingo, 24 de agosto de 2008
O que separa um ateu de um crente - por Helder Sanches
" De uma forma minimalista, poderia dizer-se que o que separa um ateu de um crente é apenas o facto de se acreditar ou não em deus(es). Só que essa pequena (grande) diferença arrasta consigo um variadíssimo rol de posturas divergentes relativamente à forma de encarar a vida.
Antes de mais, o “um ateu” do título sou eu e não outro qualquer; portanto, o título também poderia ser “O que me separa dos crentes” mas, como haverão mais ateus a partilhar pelo menos algumas das minhas razões, optei por este titulo. Por outro lado, o “um crente” do título não é ninguém em particular, de nenhuma religião ou crença específica; é possível - e até provável - que a maioria dos crentes não se revejam em todas as diferenças apontadas. Mas, mesmo correndo o risco de uma generalização exagerada, parece-me interessante a análise do que nos separa.
A ordem pela qual os pontos são apresentados é totalmente irrelevante.
Noção do Sagrado - Esta noção é tão ou mais importante para alguns crentes do que a(s) própria(s) entidade(s) divina(s). É o reconhecimento comum e colectivo do Sagrado que imprime nos grupos de crentes o sentimento de unidade social, a identificação colectiva. Muitos crentes não praticantes, embora desligados no seu dia a dia das cerimónias e dos rituais, mantêm a Noção do Sagrado intacta. O Sagrado pode ser um objecto, um local, uma pessoa ou até uma data que pela sua simbologia divina ou pela sua relação com o divino se encontra acima de qualquer suspeita, merecendo profunda veneração e respeito inquestionável. Para um ateu esta condição é absurda; afastado o conceito de divino, nem nada nem ninguém pode merecer tais atributos. O ateu terá, quanto muito, um leque de ideias e valores que considerará basilares para a construção de uma sociedade justa; mas mesmo essas ideias e valores deverão ser continuamente questionadas de forma a puderem ser rectificadas e melhoradas num processo ininterrupto.
Racionalismo e Modelo de Realidade - Para um ateu, a única forma de entender o mundo é através da razão. Não é através de sensações, revelações ou visões de qualquer espécie, mas sim através do intelecto e de uma forma dedutiva. Para um crente, a razão não é suficiente para a obtenção do conhecimento do mundo. Para este, existem verdades insondáveis, de um domínio metafisico, apenas alcançáveis pela via religiosa. Separa-nos, portanto, não apenas o método, mas também as expectativas, uma vez que para o crente a realidade absoluta estará sempre para além do que a razão pode alcançar. Não são precisos muitos conhecimentos de história para nos apercebermos que o avanço do conhecimento científico tem implicado um decréscimo nas áreas outrora integrantes da tal realidade apenas alcançável pela experiência religiosa.
Tolerância - A grande diferença aqui consiste na facilidade com que se utilizam mecanismos fúteis para defesa daquilo em que se acredita. Nenhuma religião é tolerante enquanto se sentir ofendida pelo facto de alguns dos seus ícones sagrados serem utilizados por cartoonistas, artistas plásticos porno ou realizadores de cinema polémicos. Um ateu pouco se importa que um artista crente desenhe uma caricatura de Charles Darwin com corpo de chimpanzé. Tolerância não significa achar que todas as ideias são válidas; significa, isso sim, reconhecer aos outros o direito de ter ou defender quaisquer ideias, mesmo as incorrectas ou falsas. Quando as religiões não se desmarcam das descobertas cientificas que põem em causa as suas doutrinas milenares não estão a ser tolerantes; estão, sim, a ser demagogas. Caso contrário, a colagem à ciência teria como consequência a descolagem da doutrina.
Vida, Morte e Sentido de Existência - Tenho como razões primordiais para o surgimento do fenómeno religioso a tentativa de explicação da realidade e o reconforto para a incógnita da morte. Para um crente, a expectativa de que a sua existência não acaba com a morte, que se prolonga para além desta, deverá ser uma questão fundamental. Seja pela promessa de uma outra realidade mais feliz, pelo receio de um castigo supremo ou simplesmente pela a azia provocada pelo desconhecido, não há dúvida que esta deverá ser uma matéria que causará grandes angústias a quem viver com tal credo. Para um ateu, nada disto faz sentido. Imagino o meu futuro após a minha morte da mesma forma que imagino o meu passado antes do meu nascimento: nulo, isento de experiência ou de noção seja do que for. Resta-me apenas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a questão filosófica não é o “porque vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na resposta a esta questão que se pode encontrar o sentido de existência."
sábado, 23 de agosto de 2008
Sobre a solidão
Isso inicialmente parece um grande paradoxo, na medida em que os humanos são seres absolutamente sociais: famílias, organizações, comunidades, leis, nações... até as nossas emoções, em grande parte, evoliuíram para adequarnos à convivência social.
Entretanto sou obrigada a concordar com os Existencialistas que, por mais que vivamos cercados de outras pessoas, somos inexorável e implacavelmente sozinhos.
Nascer numa família é a situação mais próxima que conseguiremos chegar de conviver com indíviduos geneticamente semelhantes, e por isso teoricamente mais parecidos, e experimentarmos pertinência.
Pertinência...identificação, acolhimento, amor... qualquer sentimento que aplaque a implacável solidão que nos assola. E que só vai aumentar.
Na medida em que nos afastamos de nossos semelhantes e nos aproximamos de outros indivíduos (de preferência geneticamente bem diferentes, pela boa saúde de nossoa prole), a sensação de pertinência, acolhimento, a incondicionalidade do amor pátrio se perdem... e nos deparamos com os breves sinais, mais ou menos ressaltados, na nossa inerente solidão. Do quanto estamos sós, hopeless, no mundo que insistimos em acreditar que é social. Talvez social apenas no sentido de que nele as almas solitárias vagantes se encontram e se relacionam... até o momento final em que nos deparamos com o inexorável da morte e da plena solidão. Ou você conhece alguém que morreu com companhia?
Quando eu penso desta forma, parece que, do útero da minha mãe para o meu leito de morte, há um longo caminho em que eu irei, aos poucos, me despreendendo de todas as amarras, deixando de pertencer, até estar final e plenamente só.
Religião X raciocínio abstrato
Terminada a introdução teórica, vem a minha reflexão.
Um dado facilmente observável é que o fanatismo religioso é inversamente proporcional ao número de anos de educação formal. Não estou dizendo que quem não estuda fica religioso nem que quem estuda não tem religião. Estou falando de fanatismo, de seguir linhas de raciocínio pouco lógicas sem nenhum tipo de análise crítica de seu conteúdo. Em exemplo disso é que a maior parte dos indivíduos "fanáticos" pertencem às classes desfavorecidas da população, ou que as religiões mais rígidas, como o Islamismo, sejam mais fortes nas regiões mais pobres do planeta, como a África e a Ásia. Acho também razoável pensar que, nestas regiões, o número médio de anos de educação formal seja menor.
Por muito tempo eu acreditei haver uma correlação forte, inversa, entre QI (inteligência) e grau de religiosidade (só não pesquisei pq não tenho idéia de como medir o "grau" de religiosidade...). Nunca testei, mas era isso que minha exeriência me dizia.
Lendo sobre raciocínio abstrato, fico pensando que talvez não seja necessário que todas as funções cognitivas estejam prejudicadas para se encontrar um indivíduo muito religioso. Acho que provavelmente precisa apenas que este tenha dificuldades com o raciocínio abstrato.
Explico.
As religiões existem para dar sentido a fenômenos que não podemos explicar. Entretanto, qualquer que seja a religião, suas explicações normalmente se encontram fortemente humanizadas. De uma forma geral, há sempre um agente, que tem vontade e age no mundo de forma a realizar sua vontade. Há ainda a idéia de futuro e de que os fenômenos apresentam necessariamente algum ligação entre si. Não parece brincadeira de criança? Qualquer bebezinho organiza seu mundo nestes termos: agente-volição-ação. Nada muito diferente dos sistemas religiosos.
A idéia de acaso, de ausência de sentido, é o que a religião visa combater. Para entender o acaso, o fato de que dois fenômenos ocorrerem ligados temporal ou espacialmente não querer dizer que eles tenham relação de causalidade, que pode ser que o mundo simplesmente não tenha nexo, é preciso uma boa dose de raciocínio abstrato... Como entender o mundo em termos completamente diferentes das experiências que eu tenho desde bebê (agente-volição-ação)? Como Einstein chegou à Teoria da Relatividade? Com o extrapolar a física Newtoniana, aceita exatamente por ser intiutiva? Como entender que, mesmo parecendo quadrado aos nossos olhos, o mundo é redondo e que é a Terra que gira em torno do Sol e não ao contrário? Só com MUITO raciocínio abstrato...
Talvez seja por isso que a maior parte dos ateus do mundo esteja entre os cientistas. Talvez essa história de ateísmo não seja mesmo pra qualquer um...
Piadinha
(Rafinha Bastos)
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
domingo, 10 de agosto de 2008
Quando o amor acontece
Como assim eu agora não acho mais tanta graça naquelas coisas que me divertiram durante anos? Como assim alguém que até bem pouco tempo eu nem conhecia agora se tornou tão essencial?
Isso é a paixão... o vício, o corpo tremendo, a fissura...E o amor? Quando você começa a achar a vida tão melhor com ele... a pensar que talvez ele seja bem parecido com o príncipe da Bela Adormecida... talvez desse até pra ficar só fazendo isso pro resto da vida... quem sabe? Acho que é quando o amor acontece... quando alguém se torna tão parte de nós que já fica muito estranho viver sem...
Mas em que momento isso aconteceu? Não sei, não senti... só percebo agora a diferença do que era há um tempo atrás para no que se transformou hoje... mágico, não? Talvez pra que a gente não tenha medo, não sinta o baque... quando você olha, perdeu! Ou ganhou.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Insight
Explico: meu slogan com os pais de crianças é o de que, quando os pais têm problemas, seus filhos acabam tendo que arcar com responsabilidades e que lidar com questões que vão além do que seria possível e recomendado para aquela faixa etária. Assim, filhos de pais que se separam, ou que brigam, acabam se deparando com a necessidade de administrar a relação dos pais, a sua relação com os pais, de decidir entre magoar um ou outro... e de se posicionar sobre questões com as quais estes não tem estrutura para lidar. E que eles não merecem ter que estar lidando!
Há algum tempo tenho bancado a "terapeuta de casais" na minha casa. Como todo casal, meus pais têm problemas. E eu fui assumindo esse papel de intermediária, conselheira, provavelmente pelo reduzido número de amigos deles aliada à minha personalidade voltada para o outro. Desde cedo passei a opinar, interferir e, principalmente, a deixar de ver meus pais como heróis para passar a enxergá-los como amigos, humanos falíveis. Por muito tempo eu achei que manejar estas questões não provocava em mim um impacto tão importante. Entretanto hoje percebo o quanto este papel não só me fez ver situações que uma adolescente não precisaria ainda estar vendo, mas também mudou minha forma de encarar os relacionamentos. Não digo que sempre pra pior. Acho que hoje vejo mais sob perspectiva, no sentido de que coisas que acontecem num namoro não são nem metade do que pode acontecer em um casamento, tanto para o bem quanto para o mal. Mas também mudou minha forma de ver meus pais. E minha relação com eles. Quando eu abro mão do meu final de semana na Lapa para ir consolar um deles, eu não estou lá como filha, mas como amiga, como pessoa. E quando, por algum motivo, ele se sente contrariado e resolve me demitir da condição de amiga e me retornar compusóriamente ao posto de filha, eu me sinto injustiçada, usada... Entendo que às vezes seja difícil ouvir certas coisas e perceber que quem fala é seu filho. Mas a questão é que, depois de anos lidando com questões que não são de filho, é justo ser demitido do posto sem aviso prévio? Parece muito cômodo ter filho quando precisa de filho e amigo quando precisa de amigo. E é nesse momento que eu percebo que estive nos últimos anos lidando com questões que eu não devia estar lidando. Não só pelo impacto que isto teve na minha visão de mundo, mas porque nesta hora eu deveria estar me ocupando das questões da minha própria faixa etária. Como as crianças deveriam estar brincando e não se preocupando se o pai depositou a pensão.
Neste momento me vejo perdida no meio dos diversos papéis que eu estou acostumada a desempenhar. Não sei mais o que é esperado de mim. Não sei como sair dessa situação. Como reeditar uma relação nesse sentido...deixar de assumir certos papéis, passar a assumir outros? Acho que esteserá o desafio dos próximos meses.
Só sei que eu deveria estar na praia, ou brigando com meu namorado porque ele ainda não me ligou hoje, como toda "criança" da minha idade.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
A criança mimada
Na verdade, a dor veio da frustração de perceber que o amor não é o que ela idealizou, que o namorado não é um príncipe, mas sim um homem. E que ela é só uma mulher, e não a única mulher na vida dele. E que a relação é só uma relação entre dois seres humanos, e não um AMOR idealizado de contos de fadas.
Se todas as estatísticas dizem que a maioria das pessoas trai (não só os homens, sejamos honestas). Se eu posso contar nos dedos de uma única mão o número de amigos/conhecidos que nunca trairam o namorado, marido etc. Porque pensar que só na minha relação o amor é tão grande que não há espaço pra pensar em outras pessoas? Talvez esteja aí a idealização: achar que eu faço parte da mínima parcela das pessoas que tem um parceiro (que se declara) fiel.
Deixando bem claro: não acho que meu namorado me trai. Pode ser que eu ainda seja mimada demais pra entender que isso é estatisticamente muito pouco provável. Mas ainda não acho.
O que eu acho é que ele provavelmente se interessa por outras mulheres, conversa com outras mulheres, deseja outras mulheres... mesmo que ele decida não chegar às vias de fato.
Agora eu pergunto... Dói menos saber que ele deseja mais não faz? Talvez... Nunca experimentei saber de nenhuma traição... Mas a minha criança mimada sente igual. A racionalização de que ele me considera, respeita, não quer perder etc e só por isso não trai não faz doer menos. Pelo menos pra minha criança. Mimada exatamente porque ela nunca foi (ou soube que foi) traída.
Será que o cara que não trai mas deseja é a pequena parcela que nós chamamos de fiéis? Provavelmente.
Será que isso é tão mal assim?
Não sei... só sei que é muito diferente dos contos de fadas que me contaram... Talvez eu precise começar a ouvir mais histórias de adulto. E crescer.
sábado, 2 de agosto de 2008
Fotografando quem procura prostitutas na praia
Acho que esta tentativa da polícia de fotografar os cidadãos que abordam prostitutas/travestis seria algo parecido, com a desvantagem de não conseguir eliminar ninguém... Mas ainda assim acho muito interessante... Possivelmente o álbum de fotos da operação vai ter cidadãos "respeitáveis", pais de família, jogadores de futebol, políticos, artistas, jovens desocupados e, quem sabe, até uns padres...
Definitivamente, um bom retrato da nossa sociedade! Afinal, segundo a lei mais conhecida do mundo, se há oferta é porque há procura...
Pena só das prostitutas que, assim como os bares depois da lei seca, vão ter uma queda temporária no seu faturamento... nada que não se reestabeleça brevemente.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
A criança dentro de mim
Tive pena do meu eu adulto, aturdido sem saber como amparar a criança que chora, calado diante da dor sem tamanho, que mesmo ele não tem palavras para descrever. Pane no sistema! As conexões entram em curto, não se comunicam.
De alguma forma, o organismo apela para uma solução emergencial, aciona os fusíveis e apaga. Congela, como uma centopéia paralizada de medo diante de seu predador. Agora o corpo é apenas um conjunto de partes vivas porém anestesiadas, juntas mas dissociadas, incomunicantes. Dissociação, anestesia, fuga mental da dor que culmina na exaustão. Cansaço, fraqueza, sono. Que melhor forma de se transportar para longe deste mundo? Quem sabe o sono, reiniciar o sistema, consiga protegê-lo do curto, da desintegração? Não sei. Só sei que acordei melhor.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Autruísmo e Felicidade
Fiquei impressionada com a simplicidade e propriedade do raciocínio. Simples e óbvio.
Mas porque será que, mesmo me considerando uma pessoa razoavelmente preocupada com o bem-estar alheio, eu não consigo fazer pelos outros sem esperar algo de volta? Sem ficar chateada, decepcionada, com raiva, quando acho que não estou sendo tão considerada quanto gostaria.
Existe um explicação na psicologia evolucionista de que tanto ser excessivamente autruísta quanto egoísta é menos adaptativo do que agir com reciprocidade. Se você divide sua comida sem pedir nada em troca, corre o risco de passar fome. Mas se também nunca divide seu pedaço de carne, provavelmente também vai passar fome se não conseguir caçar sozinho. Assim, parece que o cérebro humano evoluiu programado para dar e esperar receber em troca e a reagir se o contrato for rompido, de forma a estabelecer um equilíbrio justo de divisão de recursos entre os indivíduos.
Confesso que sou fã de carteirinha dos evolucionistas. Entretanto, sem discordar deles, hoje pensei que esse mecanismo pode ser vantajoso pra espécie, mas pra mim é uma merda! Não seria tão melhor viver como esse cidadão, que faz pelos outros e fica feliz porque fez a sua parte?
Ao ouvi-lo falar, com tamanha tranquilidade, sobre a felicidade que ele experimenta em ajudar alguém e no quanto ele entende que nem todos vão fazer o mesmo por ele e que é assim mesmo, fiquei me roendo de inveja!
Queria ter vindo com esse gene.
Entrevista psiquiátrica vapt-vupt
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Visão de mundo.
Achei esta charge em algum dos inúmeros sites em favor da ciência que eu gosto de frequentar. Acho que, de uma forma simples, ela mostra o quanto em alguns momentos o pensamento mágico/ religioso/ supersticioso pode atravancar o desenvolvimento dos conhecimentos e da própria humanidade.Sobre a pressa, a incerteza e o futuro.
Ontem li no jornal uma reportagem sobre uma nova "filosofia" chamada Nadismo. Basicamente um povo que se reúne pra ficar sem fazer nada. A primeira coisa que pensei foi que isso é muito parecido com o que chamamos de Meditação. Há alguns meses, no início da minha busca por qualidade de vida, resolvi fazer um curso de meditação transcendental. Achei o máximo! Consiste simplesmente em ficar sentado uns 20 minutos duas vezes por dia pensando numa palavrinha. Sem pressão de ter que pensar nela, sem ter que se concentrar... Só se lembrar de voltar a pensar na tal palavrinha quando você se flagrar pensando em outra coisa. Realmente o máximo... dá um relaxamento que parece até um barato... Mas não é que eu não consigo parar os tais 20 minutos todo dia? Será que me faltam 20 minutos? Penso que não. Mesmo quando me sobram alguns minutos, eu prefiro usá-los "me divertindo", ou mesmo fazendo um monte de coisas que, na verdade, não são nada... como este blog ... pra "relaxar". Gostei da história de tentar não fazer NADA. Parece que nem pensar pode (pra isso eu acho que vou ter que treinar muito...).
Mas não sei se o caminho é só me forçar a não fazer nada. Acho que vou sempre inventar algo "mais interessante" pra fazer, como aconteceu com a minha tentativa de meditação. Talvez eu tenha que, junto com essa mudança comportamental, tentar entender quais são os pressupostos que eu assumi pra minha vida que me fazem TER que estar sempre fazendo coisas.
E foi pensando sobre isso que eu cheguei à conclusão que, pra mim, trabalhar, produzir, ganhar dinheiro, ou mesmo batalhar por uma carreira que no futuro me dê dinheiro, são uma forma de tentar reduzir o tamanho da incerteza sobre o futuro que me assombra. Talvez seja este meu maior medo: um futuro que eu não sei como vai ser. E para o qual eu vivo me preparando.
De qualquer forma, a pergunta que hoje surgiu na minha cabeça foi: quando esse tal "futuro" vai começar? Pode ser que já tenha começado eu eu estivesse tão ocupada me preparando pra ele que não tenha ainda começado a vivê-lo.
Agora resta saber se eu vou começar a meditar quando terminar de escrever este texto ou se eu vou "precisar" checar os meus e-mails...
Sobre relações, passado e idealizações. II
Agonia
No teu grande corpo branco depois eu fiquei.Tinha os olhos lívidos e tive medo.Já não havia sombra em ti – eras como um grande deserto de areia Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.Na minha angústia eu buscava a paisagem calma Que me havias dado tanto tempo Mas tudo era estéril e mostruoso e sem vida E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.Eu estremecia agonizando e procurava me erguer Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.Depois foi o sono, o escuro, a morte.Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.
Vinicius.
A terra prometida
Poder dormir Poder morar Poder sair Poder chegar Poder viver Bem devagar E depois de partir poder voltar E dizer: este aqui é o meu lugar E poder assistir ao entardecer E saber que vai ver o sol raiar E ter amor e dar amor E receber amor até não poder mais E sem querer nenhum poder Poder viver feliz pra se morrer em paz
Sobre relações, passado e idealizações.
A miragem
Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores Inutilmente.Vieste – tua sombra sem carne me acompanha Como o tédio da última volúpia.Vieste – e contigo um vago desejo de uma volta inútil E contigo uma vaga saudade…És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo Como uma aflição para todas as minhas alegrias.Tu és a agonia de todas as posses És o frio de toda a nudez E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia Eu sinto que me terás como me tinhas no passado – Sinto que me virás oferecer a água mentirosa Da miragem.Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril Num desejo de aniquilamento.Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem Que estará suspensa e me prometerá água Embora sabendo que tu és a que foge Eu me arrastarei para os teus braços.
domingo, 27 de julho de 2008
No meu quadro de ímãs...
"Nossa cabeça é redonda pra permitir ao pensamento mudar de posição."
"A dor é inevitável, o sofrimento é opcional."
"People who believe in hell deserve it."
Cada um no seu quadrado... o início!
Resolvi criar um blog. Era um coisa que eu já pensava fazer há muito... pra postar textos, letras de músicas que ficam na minha cabeça, talvez algumas das anotações de coisas legais que eu vivo anotando pra lembrar depois, idéias esquisitas que eu tenho (que eu acho que são geniais) e que finalmente consegui descobri como se faz pra compartilhar com o mundo.
O nome do blog tem uma ponta de modismo, mas na verdade é o meu lema de vida: cada um no seu quadrado, cada um na sua, vivendo da maneira que achar melhor, de acordo com o que acredita... viver sem ter ninguém pra te encher a paciência e dar pitaco sobre o que fazer...
No seu quadrado, mas sem querer invadir o quadrado alheio... aí está, a meu ver, o caminho sábio da paz, da felicidade e da boa convivência...
Pode parecer só uma modinha de criança, mas a idéia deste blog é essa... esse é o meu quadrado... onde eu vou escrever o que der na telha, quando me der na telha... e lê quem quiser, divulga se quiser... e, se não quiser, não precisa voltar...
Só não venha dar pitaco no meu quadrado, ok? Isso quer dizer que críticas não serão nem um pouco bem vindas. Se não gostou, clica no X.
Pra quem quiser, bem-vindo ao meu quadrado!


