Hoje descobri uma criança dentro de mim, escondidinha atrás do adulto em que tão precocemente me transformei. De uma hora pra outra, a visão de um rosto de mulher no laptop do meu namorado despertou em mim uma criança, tão pequena e desamparada que ainda não sabe falar, que não consegue expressar em palavras o tamanho da sua dor. Dor absoluta, sem nuances ou gradações. Dor dicotômica, impenetrável por palavras, justificativas ou qualquer tentativa de relativizar ou de usar a razão para moderá-la. Dor de uma criança que ouve, mas que não entende o que ouve, que escuta mas não assimila. Criança que sente no corpo o desespero do abandono e da rejeição. Frágil, desprotegida, hopeless. Criança desesperada por um abraço que reintegre o amor perdido.
Tive pena do meu eu adulto, aturdido sem saber como amparar a criança que chora, calado diante da dor sem tamanho, que mesmo ele não tem palavras para descrever. Pane no sistema! As conexões entram em curto, não se comunicam.
De alguma forma, o organismo apela para uma solução emergencial, aciona os fusíveis e apaga. Congela, como uma centopéia paralizada de medo diante de seu predador. Agora o corpo é apenas um conjunto de partes vivas porém anestesiadas, juntas mas dissociadas, incomunicantes. Dissociação, anestesia, fuga mental da dor que culmina na exaustão. Cansaço, fraqueza, sono. Que melhor forma de se transportar para longe deste mundo? Quem sabe o sono, reiniciar o sistema, consiga protegê-lo do curto, da desintegração? Não sei. Só sei que acordei melhor.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
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