Acabo de ter um insight... na verdade, acabo de descobrir que o óbvio, o que eu repito milhões de vezes por dia na minha profissão, está acontecendo exatamente na minha vida... há muito!
Explico: meu slogan com os pais de crianças é o de que, quando os pais têm problemas, seus filhos acabam tendo que arcar com responsabilidades e que lidar com questões que vão além do que seria possível e recomendado para aquela faixa etária. Assim, filhos de pais que se separam, ou que brigam, acabam se deparando com a necessidade de administrar a relação dos pais, a sua relação com os pais, de decidir entre magoar um ou outro... e de se posicionar sobre questões com as quais estes não tem estrutura para lidar. E que eles não merecem ter que estar lidando!
Há algum tempo tenho bancado a "terapeuta de casais" na minha casa. Como todo casal, meus pais têm problemas. E eu fui assumindo esse papel de intermediária, conselheira, provavelmente pelo reduzido número de amigos deles aliada à minha personalidade voltada para o outro. Desde cedo passei a opinar, interferir e, principalmente, a deixar de ver meus pais como heróis para passar a enxergá-los como amigos, humanos falíveis. Por muito tempo eu achei que manejar estas questões não provocava em mim um impacto tão importante. Entretanto hoje percebo o quanto este papel não só me fez ver situações que uma adolescente não precisaria ainda estar vendo, mas também mudou minha forma de encarar os relacionamentos. Não digo que sempre pra pior. Acho que hoje vejo mais sob perspectiva, no sentido de que coisas que acontecem num namoro não são nem metade do que pode acontecer em um casamento, tanto para o bem quanto para o mal. Mas também mudou minha forma de ver meus pais. E minha relação com eles. Quando eu abro mão do meu final de semana na Lapa para ir consolar um deles, eu não estou lá como filha, mas como amiga, como pessoa. E quando, por algum motivo, ele se sente contrariado e resolve me demitir da condição de amiga e me retornar compusóriamente ao posto de filha, eu me sinto injustiçada, usada... Entendo que às vezes seja difícil ouvir certas coisas e perceber que quem fala é seu filho. Mas a questão é que, depois de anos lidando com questões que não são de filho, é justo ser demitido do posto sem aviso prévio? Parece muito cômodo ter filho quando precisa de filho e amigo quando precisa de amigo. E é nesse momento que eu percebo que estive nos últimos anos lidando com questões que eu não devia estar lidando. Não só pelo impacto que isto teve na minha visão de mundo, mas porque nesta hora eu deveria estar me ocupando das questões da minha própria faixa etária. Como as crianças deveriam estar brincando e não se preocupando se o pai depositou a pensão.
Neste momento me vejo perdida no meio dos diversos papéis que eu estou acostumada a desempenhar. Não sei mais o que é esperado de mim. Não sei como sair dessa situação. Como reeditar uma relação nesse sentido...deixar de assumir certos papéis, passar a assumir outros? Acho que esteserá o desafio dos próximos meses.
Só sei que eu deveria estar na praia, ou brigando com meu namorado porque ele ainda não me ligou hoje, como toda "criança" da minha idade.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
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