Em seu livro “Felicidade”, Eduardo Giannetti procura responder a uma das questões mais difíceis da humanidade: O que é a felicidade?
Na sabedoria popular, diz-se que “dinheiro não compra felicidade”. Verificamos, também, que não há nenhum sistema socioeconômico que possa, por si só, assegurar a felicidade e a realização pessoal dos indivíduos, a ele submetido. Feudalismo, Mercantilismo, Socialismo e Capitalismo, mesmo tendo promovido gradualmente a melhoria das condições de vida da população, não conseguiram resolver o problema.
Será que a ausência de felicidade é o preço que a humanidade paga pelo avanço da civilização, um castigo eterno pela perda do estado de natureza? Um castigo tal como Adão e Eva ao morder o fruto proibido?
Do ponto de vista da tecnologia, ao contrário do que se poderiam imaginar, os avanços tecnológicos não só não trazem a tão sonhada felicidade, como colocam para os seres humanos, novas questões para se preocupar, como o excesso de tarefas e, a eterna luta contra o tempo. Afinal, segundo os estudos da Psicologia Evolucionista (Cosmides & Tooby, 1997), nosso aparato cognitivo foi desenhado ao longo da evolução para resolver os problemas típicos da Idade da Pedra e não os problemas que os tempos atuais nos colocam.
O desenvolvimento filogenético da espécie não é capaz de acompanhar a velocidade das mudanças ambientais. De acordo com esta perspectiva, portanto, a rapidez das mudanças no nosso processo civilizatório seria uma agressão às nossas bases primitivas e o nosso cérebro estaria, então, fadado a lutar para tentar dar conta de cada nova mudança.
Podemos ainda refletir sobre como vemos com freqüência, hoje em dia, a felicidade ser relaciona à quantidade de neurotransmissores tais como dopamina e serotonina, nas fendas sinápticas específicas de seus respectivos neurônios. Entretanto, se assim fosse, porque a grande maioria dos pacientes medicados com inibidores seletivos de recaptação de serotonina (como a fluxetina ou a paroxetina, por exemplo) ou os usuários de drogas que estimulam a liberação de dopamina (como a cocaína, a heroína ou mesmo a cafeína), não se consideram felizes?
Outra possibilidade, seria que o ser humano somente conseguiria definir felicidade em função do contraste com a infelicidade. Estaríamos assim, num paradoxo, onde precisamos ser infelizes para sabermos o que precisamos para sermos felizes. O descontentamento seria, dessa forma, o motor da busca.
Será, ainda, que se todos os seres humanos se considerassem felizes, tal felicidade seria tão valorizada? Pensemos na lei maior do mercado, a Lei da Oferta e da Procura. Se todos fossem felizes, haveria muita oferta de felicidade e pouca procura. Poderíamos considerar o problema resolvido? Pensemos, então, em outro princípio regente do consumo, que diz que o ideal de consumo é aquele que poucos possuem, o artigo raro. Nesse momento podemos concluir que a felicidade só é importante na medida em que muitos não a possuem. Por este raciocínio, podemos ainda imaginar que o dia que todos finalmente alcançarmos a felicidade, voltaremos a sermos infelizes. Estamos mergulhados em num paradoxo insolúvel?
De acordo com Eduardo Giannetti, descobrir o que é a felicidade implica em refletir sobre o que é realmente importante na vida. Contudo, se cada ser humano é único e, mais ainda, se cada pessoa se modifica com o passar do tempo, como definir o que faz alguém feliz?
É exatamente esta a mensagem implícita que o leitor pode apreender da estratégia literária de Eduardo Giannetti, em seu livro “Felicidade”. Ao promover um debate entre personagens muito diferentes entre si sobre o que seria, afinal, a felicidade humana, ele nos provê de diferentes e interessantes perspectivas para a reflexão, muitas delas, até então, pouco presentes na definição que o senso comum propõe sobre este tema. É através da fala dos personagens Melo, Otto, Leila e Alex, que o autor coloca estes diferentes pontos de vista. Sob a forma de um diálogo filosófico, o texto, mais do que apontar uma conclusão, tem o objetivo de provocar, tal como Sócrates na Antiguidade, a dúvida e a reflexão do leitor. E além de provocar a reflexão, este livro traz ainda valiosas informações que a embasam.
A cada capítulo, o leitor identifica-se com um determinado ponto de vista apresentado por um dos personagens, ou com vários deles ao mesmo tempo. O debate prende a atenção, levando o leitor a pensar sobre os argumentos de cada um dos personagens e a formar sua própria opinião. O texto nos leva, assim, a “tomar partido” de um ou outro personagem a cada momento.
Portanto, a grande mensagem deste livro é a de que a definição de felicidade é única para cada um de nós e, em cada momento de nossa vida, esta pode se modificar, nos levando a uma busca eterna e infinita por esta que poderia ser considerada o verdadeiro Santo Graal da humanidade. Na realidade, poderíamos considerar que a felicidade ou a ausência dela é fruto das nossas escolhas, da forma como optamos por conduzir a nossa existência, das expectativas que fazemos a respeito de nossa vida e do que efetivamente fazemos para tornar estas expectativas realidade.
Uma boa conclusão seria que, se as pessoas não estão certas sobre o que desejam, elas podem estar sistematicamente equivocadas sobre o que poderia torná-las felizes. Tal qual a procura do Santo Graal, buscamos algo que não sabemos o que é, onde está, ou mesmo se realmente existe.
Referências Bibliográficas:
Cosmides, L. e Tooby, J. (1997). Evolutionary Psychology: A Primer. Disponível eletronicamente em: http://www.psych.ucsb.edu/research/cep/primer.html
Giannetti, E. (2002). Felicidade: diálogos sobre o bem-estar da civilização. São Paulo: Cia das Letras.
Informações sobre o autor:
http://www.ibmecsp.edu.br/inst/modules/shortbios.php?recid=186&popup=1
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
O Santo Graal
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