Introdução:
Uma das grandes preocupações da Psicologia e de outras áreas do conhecimento humano é estudar meios de oferecer melhor qualidade de vida às pessoas. Um dos aspectos importantes e determinantes de uma boa qualidade de vida é a eficácia dos relacionamentos interpessoais, já que estes estão presentes, em grande parte do tempo, no dia-a-dia das pessoas.
Podemos considerar o relacionamento conjugal e a satisfação alcançada com o casamento um importante fator determinante da qualidade de vida de um indivíduo. Isso tanto em função da quantidade de tempo empregado nesta relação, quanto pelo valor simbólico que a “vida amorosa” adquire em nossa sociedade.
Este trabalho tem por objetivo a reflexão sobre as relações amorosas entre as pessoas na pós-modernidade, mais especificamente, sobre a satisfação conjugal nos dias atuais.
A reflexão sobre este tema partiu da leitura do livro “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman, que trata exatamente das relações romântico-sexuais entre os indivíduos na pós-modernidade. Entretanto, o que pretendo abordar neste trabalho vai além da discussão proposta por este autor.
O relacionamento conjugal na pós-modernidade e, principalmente a satisfação conjugal, são temas extremamente relevantes atualmente, porém, ainda pouco explorados pela literatura especializada. A discussão do casamento hoje passa apenas superficialmente pelas mudanças ocorridas na contemporaneidade. Assim, usamos velhos discursos para novos e inéditos problemas.
Certamente, não pretendo, com este trabalho, esgotar este tema. Por outro lado, busco trazer a tona algumas questões pertinentes acerca do assunto, tendo como pano de fundo a prática clínica.
Dessa forma, o objetivo molecular deste trabalho é explorar como a clínica de casais, aqui focando principalmente a abordagem cognitiva, pode ser enriquecida pelo estudo das questões, problemas e vantagens que a pós-modernidade traz para a relação e a satisfação conjugal.
Relacionamentos pós-modernos:
De acordo com Bauman (2004), em nosso mundo pós-moderno, caracterizado pela individualidade, os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo e não há como determinar quanto um se transforma no outro.
Hoje temos, por um lado, homens e mulheres lidando com seus sentimentos facilmente descartáveis e, por outro, ansiando pela segurança e pela mão amiga que possam contar num momento de aflição. Indivíduos desesperados por “relacionar-se”. No entanto, estes indivíduos desconfiam da condição de “estar ligado”, em particular, de estar ligado “permanentemente”, para não dizer eternamente. Isso porque temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem estão dispostos a suportar e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para relacionar-se.
No todo, o que as pessoas aprendem hoje é que compromisso, e em particular o compromisso a longo prazo, é a maior armadilha a ser evitada no esforço por “relacionar-se”. A hipótese de um relacionamento “indesejável, mas impossível de romper” é o que torna “relacionar-se” a coisa mais traiçoeira que se possa imaginar. “Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente.
Comprometer-se com um relacionamento é, pois, uma faca de dois gumes. Manter ou não o casamento passa a ser uma questão de cálculo e decisão. Porém, não há motivo para supor que seu parceiro ou parceira não deseje, se for o caso, exercitar uma escolha semelhante, e que não esteja livre para fazê-lo, quando desejar. Essa consciência, por sua vez, acaba por aumentar ainda mais a sensação de incerteza.
O casamento ao estilo antigo “até que a morte nos separe”, já desestabilizado pela co-habitação “vamos ver como funciona”, ou “morar juntos”, reconhecidamente temporária, é substituído, na pós-modernidade, pelo “ficar juntos”, de horário parcial ou flexível.
Abandonar e destituir foram celebrados, por um breve período, como a derradeira libertação do sexo da prisão em que era mantido por uma sociedade moderna patriarcal e puritana.Teríamos, afinal, um relacionamento mais puro, um encontro que não servia a outro propósito senão o prazer e a alegria. Uma felicidade de sonho, sem restrições, sem medo de efeitos colaterais e, portanto, alegremente cega às suas conseqüências. Uma felicidade do tipo “satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta”. A mais completa encarnação da liberdade, tal como definida pela sabedoria e pela prática populares da sociedade de consumo.
Afinal, se, em nossa sociedade consumista, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatório são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que novas e aperfeiçoadas versões aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento, porque as parcerias seriam consideradas uma exceção à regra?
O que caracteriza o consumismo não é acumular bens, mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de abrir espaço para outros bens e usos. A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam.
De acordo com Volkmar Sigusch, citado por Bauman (2004), todas as formas de relacionamento íntimo atualmente em voga portam a mesma máscara de falsa felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre. Ao olharmos mais de perto, descobrimos anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição.
É correto, talvez até estimulante e ao mesmo tempo maravilhoso, que o sexo seja assim liberado. O problema é como mantê-lo na forma quando não se dispõe mais de estruturas.
Pode-se pensar hoje que as íntimas conexões do sexo com o amor, a segurança, a permanência e a imortalidade, via continuação da família, presentes antigamente, não eram, afinal de contas, tão inúteis e constrangedoras como se imaginava que fossem. Os antigos companheiros do sexo, supostamente antiquados, talvez fossem seus sustentáculos necessários.
Dentro deste modelo, nem o amor “até que a morte nos separe” nem consentir em estabelecer compromissos sem volta eram considerados redundantes – muito menos percebidas como limitadoras e opressivas. Pelo contrário, costumavam ser os “instintos naturais”. Tampouco eram, de qualquer ponto de vista, “irracionais”: eram os equipamentos e manifestações necessários e obrigatórios da racionalidade do homem. O amor e a disposição para procriar eram companheiros indispensáveis do sexo, da mesma forma que as uniões duradouras que ajudavam a criar eram produtos principais e não efeitos colaterais dos atos sexuais.
Dessa maneira, privado de seu antigo prestígio social e dos significados que antes eram socialmente aprovados, o sexo encerra hoje a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína líquida da vida moderna.
Todavia, não há sentido em comparar os sofrimentos da passado e do presente, tentando descobrir qual deles é menos suportável. Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo.
O que temos de concreto no presente é que esse dilema dos relacionamentos na pós-modernidade não tem uma boa solução. Pior ainda, que ele está impregnado de um paradoxo: não apenas a relação falha em termos da necessidade que deveria cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais presente.
Além disso, se não há uma boa solução para um dilema, as pessoas tendem a se comportar de modo irracional, aumentando o problema e tornando ainda menos plausível resolvê-lo. O que vemos hoje é que, ao se sentirem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo não-construtivo.
Conceitos da literatura que contribuem para a reflexão:
De acordo com Epstein e colaboradores (2003), expectativas são as predições que as pessoas fazem sobre a probabilidade de determinados eventos ocorrerem no futuro, em condições específicas. As expectativas negativas podem exacerbar o estresse, porque os estressores antecipados podem ser tão ou mais perturbadores do que os eventos reais do relacionamento.
Quando um casal inicia um relacionamento, vão sendo absorvidos um conjunto de crenças e expectativas que cada um desenvolveu em função de sua biologia, de sua cultura, dos modelos que teve na vida e do resultado de suas experiências com o meio que atuou e que atua (Tanganelli, 2003). As expectativas que cada parceiro tem sobre a natureza do relacionamento íntimo influem na dinâmica do relacionamento em função das distorções nas avaliações que eles podem apresentar sobre o mesmo.
Por outro lado, temos as suposições e os padrões, que são duas formas de esquemas cognitivos ou representações internas relativamente estáveis que o indivíduo tem para caracterizar coisas e acontecimentos, bem como para compreender as relações entre eles. Em termos das cognições dos casais sobre relacionamentos, as suposições são crenças a respeito da natureza humana e da maneira pela qual duas pessoas se comportam entre si em um relacionamento íntimo. Os padrões são as crenças sobre as características que parceiros íntimos e seus relacionamentos “deveriam” ter.
Em terapia, cabe ao terapeuta ajudar o casal a “reescrever” padrões e suposições extremos, criando visões mais moderadas e ainda consistentes com os valores básicos da pessoa.
A terapia cognitiva para casais, conforme proposta por Beck (1995), enfatiza fortemente os esquemas. A intervenção terapêutica se baseia em pressuposições por meio das quais os membros da família se interpretam e se avaliam mutuamente e nas emoções e comportamentos gerados em resposta a essas cognições. Assim como o indivíduo mantem esquemas básicos sobre si, seu mundo e seu futuro, ele também mantém esquemas sobre sua família. Esses esquemas, provocam distorções na percepção e interpretação da realidade de modo a fazê-la convergir com o esquema. Dessa forma, os esquemas costumam se auto-perpetuar, em um ciclo infinito.
Os esquemas familiares são crenças compartilhadas que a família formou como resultados de anos de interação integrada entre os membros da unidade familiar. Dattilio (2003) sugere que os indivíduos basicamente mantém dois conjuntos de esquemas separados sobre famílias. Estes referem-se a esquemas familiares relacionados à família de origem dos cônjuges e esquemas relacionados a famílias em geral. Os esquemas familiares também contêm idéias sobre como os relacionamentos conjugais deveriam funcionar.
A família de origem de cada parceiro de um relacionamento desempenha um papel crucial na formação do esquema sobre a família imediata. Crenças oriundas da família de origem podem ser conscientes ou inconscientes e contribuem para um esquema conjunto associado, que leva ao desenvolvimento do esquema sobre a família atual. Entretanto, os esquemas familiares, apesar da estabilidade característica dos esquemas, estão sujeitos a mudança, à medida que acontecimentos importantes vão ocorrendo na vida familiar.
Ainda, Del Prette, A. e Del Prette, Z.A.P. (2001, pág. 31) definem habilidades sociais como “experiências de diferentes classes de comportamentos sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais”. Desempenho social seria “a emissão de um comportamento ou seqüência de comportamentos emitidos em uma situação social qualquer.” Por fim, o termo competência social “tem sentido avaliativo que remete aos efeitos do desempenho social nas situações vividas pelo indivíduo, qualificando, portanto, a proficiência de um desempenho e referindo-se à capacidade do indivíduo de organizar pensamentos, sentimentos e ações em função de seus objetivos e valores e articulando-os às demandas imediatas e mediatas do ambiente.”
Os comportamentos socialmente habilidosos são, em grande parte, aprendidos na interação do indivíduo com o seu ambiente. Começam a ser desenvolvidos na infância (modelo de pessoas próximas, modelagem social e esquemas de reforçamento) e podem continuar o desenvolvimento, dependendo das contingências a que são submetidas (Skinner, 1989). A aquisição do repertório comportamental socialmente habilidoso envolve um aprendizado durante toda a vida através da interação do indivíduo com seu meio social, no exercício crescente de novos papéis e assimilação de normas culturais (Del Prette e Del Prette, 1999).
A literatura tem mostrado que as habilidades sociais constituem em importante ingrediente das relações conjugais satisfatórias e que a competência social é determinada por múltiplos fatores, incluindo-se aí as crenças e normas individual ou coletivamente assimiladas.
Sabemos hoje que indivíduos com um repertório adequado de habilidades sociais têm maior probabilidade de apresentarem satisfação no relacionamento conjugal do que aqueles que não o desenvolveram (Flora e Segrin, 1999).
A satisfação conjugal é, ainda, relacionada indiretamente com a capacidade de resolução de problemas (componente das habilidades sociais). No estudo de Dela Coleta (1992), experiências de sucesso na resolução de problemas levaram o casal a aumentar suas expectativas de controle interno, que é relacionado a maior satisfação conjugal.
Em muitos casos de separação e/ou busca de auxílio terapêutico, têm-se constatado que a causa está nas dificuldades de um ou ambos os cônjuges no que diz respeito às habilidades interpessoais. Estas pessoas, por algum motivo, não desenvolveram um repertório satisfatório para se comunicarem, expressarem sentimentos, opiniões e desejos, ouvirem o outro, entre outras habilidades. Então, acabam vivendo num ambiente aversivo para ambos, com escassez de reforçadores positivos.
Por outro lado, observa-se que há cônjuges extremamente habilidosos socialmente que conseguem reforçar-se mutuamente, expressar seus sentimentos, desejos e opiniões, constituindo assim um ambiente saudável, que possibilita o desenvolvimento pessoal de ambos e a educação de seus filhos para serem também emocionalmente saudáveis e socialmente habilidosos.
Os aspectos reforçadores dos relacionamentos conjugais, ou seja, mais conseqüências recompensadoras que negativas e reciprocidade do casal na emissão de reforçadores, possibilitam a manutenção do relacionamento maximizando a sua qualidade.
Casais mais satisfeitos possuem um relacionamento rico em reforçadores positivos, habilidades de resolução de problemas, equilíbrio entre fornecer e receber reforço positivo e demais fatores que dependem, entre outros aspectos, das habilidades sociais de ambos.
Discussão:
Num cenário como o que vivemos hoje na Pós-modernidade, aqueles que optam por casar-se, por renunciar às diversas oportunidades, sofrem, além das pressões endógenas inerentes à dinâmica da vida conjugal, pressões exógenas, em função dos novos arranjos sociais e de relacionamentos que se colocam nesta época, diferentemente de seus pais e avós.
Manter ou pretender manter, atualmente, um casamento por toda a vida é “nadar contra a corrente”, na medida em que inúmeras e promissoras oportunidades de felicidade em relacionamentos “mais simples” e com “menor esforço pessoal” que o casamento se mostram. Assim, a satisfação conjugal passa a ser vista sob um novo ângulo.
A satisfação conjugal passa a ser entendida como: 1) Condição sine qua non para se permanecer casado, algo imprescindível para a manutenção do casamento 2) Uma recompensa pelo esforço feito em ficar casado, 3) Algo a ser alcançado a qualquer custo, 4) O grande objetivo de plenitude, tranquilidade e segurança, que faria do casamento uma melhor opção existencial do que as “relações de bolso”. Se a satisfação conjugal não é alcançada em sua plenitude, temos o grande número atual de divórcios (Afinal, por que permanecer numa relação não satisfatória se esta já não é a única opção de se encontrar a felicidade, como era concebida até alguns anos atrás), frustração e, conseqüentemente, depressão.
Segundo a estatística apresentada pela revista Veja em 11/09/1999, o índice de divórcios nos EUA é de 60%, na Inglaterra, 40%, e no Brasil, de 25% (IBGE, 1995). Este índice aumenta a cada dia em todo o mundo e surgem mudanças nas expectativas sobre o que é um bom casamento.
Os dados sugerem, ainda, que o casamento tradicional (marido provedor, mulher dependente, obediente e submissa) tem sido substituído por uma relação de maior amizade, afinidade, divisão de tarefas e despesas.
Atualmente, os esquemas sobre o funcionamento conjugal, construídos ao longo de nosso desenvolvimento, tomando por base nossa família de origem, não mais se encaixam totalmente em nossa realidade pós-moderna. Entretanto, sabemos o quanto estes esquemas são difíceis de serem modificados e como estes se auto-protegem de elementos da realidade que possam desconfirmá-los, gerando um conflito perene entre o que acreditamos ser o modelo de relacionamento e a nova realidade que se impõe.
Hoje, tanto o homem quanto a mulher precisam de muito mais do que seus avós necessitavam para serem felizes. A sociedade de consumo da pós-modernidade impõe sua lógica não somente sobre os produtos, mas também sobre os relacionamentos e a satisfação que estes “devem” proporcionar. Como hoje estar casado é uma opção e não mais uma etapa necessária da vida de praticamente todos os seres humanos, ao se trocar a oferta de quantidade por uma relação monogâmica, exige-se, em troca, mais qualidade.
Assim, as exigências e as expectativas se tornam cada vez maiores e mais amplas e a satisfação conjugal, quando estas não são atendidas, também, conseqüentemente, mais distante de ser alcançada.
Vivemos buscando mais e cada vez menos satisfeitos, num ciclo vicioso em que os objetivos não-alcançáveis e não-alcançados, alimentam a crença predominante de que se precisa de cada vez mais. O preço desta roda-viva frenética é a insatisfação tanto dos solteiros quanto dos casados, divorciados e “semi-casados”.
Ainda, num momento em que as pessoas, particularmente as mulheres, estão buscando cada vez mais satisfazer às suas necessidades, surgem conflitos nos relacionamentos, quando estas buscas não convergem para um mesmo ponto.
Hoje em dia, as pessoas, até mesmo as mulheres, têm, teoricamente, tudo o que precisam para viverem sozinhas. Assim, ao atrelarem suas vidas à de outra pessoa, procuram alguém que as faça feliz, que as liberte do vazio existencial e não alguém que as “atrapalhe”. Mas isso é um paradoxo, pois na medida em que vivemos com outras pessoas, precisamos também atender às suas necessidades. Este outro que preenche o vazio de cada um, não pode ser apenas mais um bem de consumo. Os indivíduos da sociedade de consumo por vezes se esquecem que o outro é também um ser humano e, como tal, possuiu suas próprias necessidades.
Como conciliar, principalmente para as mulheres, mas também para os homens, os ideais de família e casamento arraigados em nossa memória coletiva e em nossos esquemas? Como evitar que estes moldem as nossas expectativas, num mundo em que o que se vê é uma inversão da ordem até então corrente, com, por exemplo, a crescente participação da mulher na vida social e profissional, o que gera profundas alterações em seu papel social, mas também no papel social de seu companheiro e na realidade do funcionamento familiar? Como lidar com a frustração de não ter as expectativas atingidas?
Como conciliar os objetivos atuais dos parceiros, suas crenças? Temos, de um lado, a mulher buscando conquistar seu espaço profissional e, do outro, o homem querendo deixar de ser o depositário único de todas as responsabilidades de sustento e proteção da família, apreciando a ajuda de sua parceira fora de casa. De que forma podemos lidar com essa realidade tendo em vista o modelo de família que originou nossos esquemas e nossas expectativas?
A solução provisoriamente encontrada pelas famílias hoje é a chamada “tripla jornada feminina”: emprego, família e afazeres domésticos. Porém, como toda solução, esta também tem seus problemas: mulheres cansadas, estressadas, pressionadas e frustradas que e porque não conseguem dar conta de tudo, se sentindo injustiçadas por assumirem tantas tarefas, porque não conseguem dedicar-se tanto ao parceiro e aos filhos e se sentem culpadas por isso, mas que também precisam lidar com um mercado de trabalho onde elas têm os mesmo deveres e, entretanto, direitos distintos dos homens. E homens, por sua vez, também insatisfeitos e frustrados com a sua situação, com a provável perda da qualidade e frequência da vida sexual, com a falta de tempo, com a incerteza quanto ao seu papel social e o de sua esposa, sem saber o que esperar. O indivíduo pós-moderno está sempre em dívida. Enfim, pressões que hoje existem e contribuem para que cada vez mais casais se sintam frustrados e insatisfeitos.
Desta forma, torna-se mais importante ainda nos dias de hoje pensarmos em habilidades interpessoais que permitam aos indivíduos solucionarem e lidarem com seus conflitos e divergências, para que possam se realizar sem ter que abrir mão do casamento e ainda assim obter satisfação conjugal.
Neste novo modelo de relacionamento, é fundamental conviver, saber da vida do outro, conversar, trocar idéias sobre qualquer assunto e saber ouvir. Pode-se observar que os indivíduos envolvidos em um relacionamento conjugal estão buscando, no seu dia-a-dia, mesmo que ingenuamente e sem conhecer cientificamente o conceito, comportamentos socialmente habilidosos dentro do contexto do casamento.
Por outro lado, na medida em que a proximidade entre as pessoas é substituída pelas “relações virtuais”, as habilidades sociais tornam-se menos importantes e valorizadas. Portanto, dedica-se menos tempo e esforço ao seu aprendizado o que faz com que as pessoas praticamente não as tenham e precisem procurar cada vez mais relações virtuais, que exigem menos o uso destas habilidades interpessoais, onde possam se sentir mais confortáveis.
O desvanecimento destas habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem.
Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmos, e por essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor.
Sabe-se, também, que casais mais habilidosos no manejo de situações sociais tendem a apresentar um maior grau de satisfação conjugal e um menor índice de divórcios. Entretanto, como alcançar efetivamente essa satisfação? Como ajudar os indivíduos que, filhos da nossa sociedade pós-moderna, não conseguiram desenvolver essas habilidades de maneira satisfatória?
Além disso, será que os esquemas familiares, caracteristicamente tão estáveis, podem ser trabalhados para tornar o indivíduo mais adaptado para manejar com essa realidade e suas mudanças tão repentinas?
Ainda, se os problemas específicos trazidos pela era em que vivemos forem abordados de forma mais direta e menos abstrata, remodelando as expectativas distorcidas individuais, no âmbito da clínica, podemos obter melhores resultados em termos de satisfação conjugal? Será que as intervenções com casais hoje consideram estas questões? Será que são eficazes para os casais pós-modernos?
Essas questões não são assim tão simples de serem abordadas na clínica e transpostas para a prática da intervenção com casais. Contudo, parece razoável que, num momento em que os novos desafios colocados para os casais no presente se tornam tão pregnantes, a clínica possa ensaiar uma leitura inteligente dessa realidade de modo a planejar intervenções que estejam convergentes com os problemas reais e objetivos enfrentados pelos indivíduos contemporâneos.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
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